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“PRIMEIRO PASSO: SUPERAR O ORGULHO”
Eduardo Mascarenhas, Médico-Psicanalista.
Durante 50 anos de experiência na recuperação de alcoólatras, os Alcoólicos Anônimos ganharam a convicção de que só é capaz de se libertar solidamente do álcool quem fizer profunda reformulação de sua personalidade. Para alcançar essa reformulação, cumpre percorrer aquilo que, no programa de recuperação adotado pelos AAs, ficou conhecido como os DOZE PASSOS.
Esses DOZE PASSOS constituem um guia, uma meta ideal. Nenhum A.A. conseguiu atravessá-lo completamente, mas tentar segui-los é uma forma de se esforçar permanentemente por um aperfeiçoamento pessoal.
Com todo respeito pela literatura dos AAs, vou me permitir descrevê-lo com as minhas palavras, tal como eu o entendi.
O PRIMEIRO PASSO é a pessoa superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer o quanto quer. Não é mais sua mão que procura o copo, mas o copo que a atrai. Ela não tem mais controle sobre o álcool, está dominada por ele.
O primeiro passo é a pessoa se dizer: “ basta de empulhação! Chega de desculpas esfarrapadas! Não posso mais continuar dizendo o dia que eu quiser eu paro de beber. Até paro, mas só por uns dias, um mês, por um ano. Depois volto à bebida com apetite redobrado”.
Por incrível que pareça, dar esse Passo é dificílimo. Primeiro porque é angustiante mesmo admitir que se está perdendo o controle sobre algo que gera tão sérias conseqüências para a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas teimam em considerar o alcoolismo não como uma doença, mas como fraqueza de caráter ou falta de força de vontade. Se muita gente já se sente humilhada em ter uma doença que é considerada como falta de vergonha na cara.
Pau d’água, degenerado, cachaceiro, bêbado, porrista e pé-de-cana são expressões que adquiriram colorido insultuoso e que só servem para reforçar o estigma que paira sobre o alcoolismo. É importante acreditar que existe tratamento para o alcoolismo, mas não apenas tratamento químico e impessoal. Às vezes, é mais fácil tomar injeção na veia, entregar o coração para uma Ponte de Safena ou a cabeça para um Valium do que confiar numa pessoa ou num Grupo de pessoas para realizar tratamento que exige certo grau de entrega pessoal.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passe na frente ou é profundamente cientista. Médicos, cirurgiões e neurologistas não são vistos como pessoas, mas como sacerdotes da técnica. Os seres humanos com seus poderes pessoais ficam excluídos tanto pela fé infantil aos milagreiros quanto pela fé igualmente infantil na parafernália dos laboratórios, cheios de tubos de ensaio. O difícil mesmo é ver gente confiando em gente.
A resistência aos Alcoólicos Anônimos passa por aí. Já houve resistências idênticas em relação à psicanálise. Aos trancos e barrancos, a psicanálise conseguiu infiltrar-se na cultura, e hoje é até chique recorrer a um psicanalista. Mas os AAs oferecem ajuda gratuita, suas reuniões não são coordenadas por “doutores”, portanto têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Além disso, o Anonimato de seus membros impossibilita que se tornem célebres, dando entrevistas ao FANTÁSTICO.
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Às reuniões dos Grupos comparecem pessoas das mais diversas camadas sociais. Ora, quem tem grana não gosta de se “misturar”. Tem medo de que pobreza pegue, e como não sabem o que vão encontrar lá, temem ficar diante de mendigos, cachaceiros e de pés-inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classes sociais menos favorecidas também tendem a se intimidar com esse tipo de encontros, pois não estão acostumadas a conviver democraticamente com endinheirados. Mas que vale a pena, isso vale.
FONTE: Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos “Vivência”