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Segundo Passo - "Viemos a acreditar que um Poder maior do que nós poderia devolver-nos a sanidade".
Até aqui, identificamos um salto na qualidade de recursos egóicos adquiridos. O drogadito, que tinha referências alucinatórias, vivia pelo princípio do prazer e com predominância do processo primário de funcionamento , portanto, em posição esquiso-paranóide - recursos egóicos e desenvolvimento emocional de um bebê de 2 a 4 meses ; já adquiriu um compromisso com a realidade interna e externa, suporta ambivalências, dores e vive o luto do narcisismo ou seja, predomínio da posição depressiva (recursos egóicos de um bebê mais maduro).
Após o reconhecimento de sua insuficiência, é necessária a inserção de um outro no universo anímico que sirva de referência e continência. O vínculo que antes era com um objeto idealizado concreto (droga), passa a ser com um objeto simbólico (Deus) - Podemos observar que a passagem de um vínculo concreto para um vínculo simbólico pressupõe uma aquisição (recente) de recursos egóicos mais elaborados. Este outro é primeiramente idealizado e de permanência constante - como uma forma de vínculo adesivo (Hinshelwood, 1992, págs 355/356) - ao indivíduo e, por isso, a escolha do símbolo universal Deus ("Poder maior do que nós"). Recorremos a Winnicott (1958) em "A capacidade de estar só" para dar um sentido psicodinâmico a este fenômeno. O autor propõe que, inicialmente, a criança só é capaz de estar sozinha na presença de alguém, ou seja, consegue manter sua recém adquirida (mas, ainda frágil) integridade egóica e não recorrer a mecanismos primitivos de funcionamento (regredir) se tem por perto alguém (mãe para o bebê e Poder Superior para o adicto) com maturidade egóica suficiente para protegê-lo dele mesmo (de seus impulsos destrutivos). O ego maduro desta mãe, com seus inúmeros recursos, dá continência ao ego débil do bebê / criança. Na literatura de NA (1983) encontramos: "O Primeiro Passo deixa-nos (como herança) a necessidade de acreditarmos em algo que nos ajude com nossa impotência, inutilidade e desamparo.(...) O primeiro passo deixou um vazio em nossas vidas" (pág. 24). Presença de ansiedade depressiva, reconhecimento de limites do corpo e do ego. Para o drogadito a companhia constante de um ego mais estruturado só é possível através de um processo de simbolização deste outro – "... podemos escolher o grupo, o programa, ou podemos chamá-lo de Deus" (NA, 1983, pág. 26). Este outro deve possuir recursos suficientes que amparem a insuficiência do ego – "preencha o vazio" (NA, 1983, pág. 24). Percebemos, aqui, a aquisição de recursos egóicos mais desenvolvidos - idade emocional de um bebê no início da infância - possui independência protegida. Para Melanie Klein (1930), “o simbolismo não constitui apenas o fundamento de toda fantasia e sublimação, mas também sobre ele se constrói a relação do sujeito com o mundo exterior e com a realidade em gera”.
A título de curiosidade, podemos complementar a análise deste Segundo Passo através da "Imagem de Deus" segundo Jung (1988) que pode ser compreendida como o símbolo da totalidade psíquica. O autor explica: "Só por meio da psique podemos constatar que a divindade age em nós; desta forma, somos incapazes de distinguir se essas atuações provêm de Deus ou do inconsciente, isto é, não podemos saber se a divindade e o inconsciente constituem duas grandezas diferentes... Pode-se constatar que existe no inconsciente um arquétipo da totalidade... que se aproxima da imagem de Deus". Portanto, o drogadicto que estava pondo em funcionamento apenas a parte psicótica de sua personalidade (KALINA, 1983), a integra, podendo estabelecer compromisso com outras instâncias psíquicas que estavam inoperantes, como, por exemplo, seu núcleo neurótico. A partir deste momento, inicia-se o uso mais freqüente de mecanismos de defesa de alto nível (KERNBERG,1976), na presença deste outro protetor, o ego torna-se mais forte para arriscar fazer uso de recursos mais elaborados da personalidade como os recursos neuróticos. Desta forma, a existência deste outro, devolve ao adicto, a sanidade (primeira possibilidade de não funcionar de forma psicótica e com ansiedade psicótica).
No desenvolvimento psicossexual, surge um momento que, através do amparo de um outro perfeito, a criança consegue suportar suas deficiências e qualidades, torna-se capaz de reconhecer seus limites mas ainda não suportaria encontrar um outro que não fosse apenas dedicação, altruísmo, continência, acolhimento e proteção, ou seja, o outro é idealizado sem limites nem restrições (a mãe, neste momento, cumpre esta função). Identificamos aqui, a mesma forma de funcionar do drogadito que chegou a este Segundo Passo (Deus, neste momento, cumpre esta função). Ele, como a criança, se torna capaz de integrar os vários aspectos do outro diferenciado quando avança mais em seu desenvolvimento psíquico, portanto, no Terceiro Passo.